Original #1 - Nu na Fonte
- 19 de set. de 2014
- 3 min de leitura
Hoje, eu, seguindo feito gado um caminho que me foi proposto como única via de realizar meu objetivo, me deparei com uma situação peculiar. De dentro de um conto de Clarice Lispector me bateu um estranhamento. Não vi um cego mascando chiclete, como em Amor e nem um mendigo como em A Bela e Fera... Vá lá, digamos que era um mendigo e que fique por assim.
O homem, nu, se banhava numa fonte de prata. Desnudo, em frente a uma boate. Despido, por trás de um shopping. Nu, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Nu, ele se lavava e aproveitando o ensejo ele lavava os trapos, o único talho que lhe taparia para além da fonte. E ali, eu, olhando de longe, seguindo a linha imaginaria sem nem olhá-la, vidrado no homem usando a fonte como banheira. Uma fonte de prata, puro luxo. No meio no gramado bucólico perdido em tanto asfalto duro. As paredes da boate se erguiam em roxo e amarelo. As do shopping, em azul. E a fonte brilhava em pura prata ao toque do sol, enquanto um anjo argentino dançava com o esguicho na mão.

Ali, me questionei quanto à quantidade quantitativa qualificada e aliterada de liberdade que possuía aquele homem. Sem pudor, ele, nu, lavava as vestes como que lavadeira. Esfregava, levantava, batia, jogava. Da bunda balançava a pele seca que sobrava. O sexo, ele, despudorado, deixava ao léu, arejando.
A água encardia, a roupa clareava e eu seguia de braços dados com a liberdade que me cutucava na cabeça. Perguntava-me até que ponto a liberdade daquele homem é maior que a tua? Até que ponto a liberdade dele te ameaça? Constrange-Te? E, eu, sem resposta, marchava diminuído. Não pela expliciteis, mas pelo conteúdo de liberdade que a cena me gritava.
Minha cultura diz que roupa é artigo de primeira necessidade, tal qual água e comida. Mas, aquele homem, sem roupa, de certo sem comida e usando a água de outro, que não lhe regulava. Ele desconhecia essa tal de primeira necessidade, ele tinha a necessidade que tinha. E ao que vi, era de ficar limpo.
Minha sociedade também diz que eu sou livre, mas se eu, homem de bem, saiu nu, na rua, é caso de policia, de certo maluco estou. “INTERNEM! O COITADO DESPIROCOU!”. Por toda a via, a nudez do homem incomodava, mas não acometia como a minha. A dele era justificada, era pobre, tinha fome, tinha sede, ansiava por limpeza mais que por utopia. E, ele, preso pela convenção que ao redor se construía, era mais livre que eu, o qual tinha liberdade de comer, de beber, de ser limpo e de clamar por um futuro.

A conclusão que cheguei, quando chegado ao meu destino, já fora de alcance do meu algoz, é de que a sociedade nos prende e nos limita. Da mesma forma que pobreza dele o faz. E, assim seguimos, de cabeça baixa e aceitando aquilo que nos dizem, aguardando os julgamentos silenciosos dos nossos juízes diários. Estejamos nus ou vestidos estaremos julgados. Por isso vos digo, se queres liberdades, irmão, tire a roupa! Mas, se temes a opressão permanece com ela e não reclamas. Eu te garanto que o nosso “laco” de liberdade, de barriga cheia e sem necessidade, é por demasiada distância melhor que a do nu na fonte.









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